terça-feira, 21 de outubro de 2014

Carta ao ex namorado

Então você disse pela segunda vez que não entende como não vi que nossa relação já tinha terminado há tanto tempo.

E depois me deu mole. Fantasiou transas temperadas a hemp e álcool. Bem como fazíamos.

A gente se encontrou por acaso no aplicativo de pegação depois que você chegou do Canadá. Foi a primeira vez que nos falamos no Brasil desde aquela conversa que precedeu a viagem e o término por Whatsapp. Eu era agora uma foto de tronco peludo. Você a de um peito com o volume do pau aparecendo embaixo da bermuda azul. Você me disse que, quanto mais forte fosse enrabado, mais duro seu pau ficava. Gostou das fotos de pau que lhe mandei fingindo que não sabia que era você. Disse que gostava de caras mais baixos que você. Falei onde eu morava e você deve ter ali suspeitado, pois minha rua não é residencial e você sabia da minha nova condição residência-empresa. Perguntou se era a exata empresa onde trabalho. Sugeriu vir me dar e depois sumiu.

Confrontei você no Facebook. E foi então que disse pela segunda vez que não entendia como eu não tinha visto antes que nossa relação já tinha terminado há muito tempo. Agora isso não me sai da cabeça.

E eu lembro de que há muito tempo você fugia das estocadas fortes que eu dava ao te enrabar. Dizia que não era nada comigo, mas já está no aplicativo de pegação procurando outra pirocada de alguém mais baixo que você.

E eu lembro do seu desinteresse pelos meus problemas nos últimos meses e do quanto você me consumia com as suas queixas da vida, mesmo eu pedindo para você parar.

E eu lembro de que você me avisou que viajaria ao Canadá. Que passaria três semanas lá. E que a mim nada de suas férias seria dedicado.

E eu lembro de que você passou pela porta da minha nova condição de residência-empresa bem no dia da minha mudança. E não desceu do ônibus porque "estava virado". E não dormiu, como disse que faria, e  mais tarde me avisou que iria malhar, mesmo sem dormir, e iria ver o João. Se desse, iria ver meu apê novo. O João não quis te ver e você veio. E não tem nada que você me diga que me tire esse descaso. Nada. Não sei porque você toda hora se defende dizendo que reservou o seu aniversário para a minha mudança, se nem te vi no seu aniversário. Se falei que queria te fuder uma última vez na casinha, no seu aniversário, e depois você me disse que "bateu mal" eu dizer isso e você não quis ir.

E aí, sim, eu vejo que você tinha saído da relação há muito tempo. Não era ela que tinha acabado. Pois para mim ela estava tão viva... Eu contava tanto com você na minha vida. Só que você saiu dela sem me avisar e ainda agora me diz que "a relação tinha acabado", sendo que isso é só um eufemismo para uma verdade que você deve ter vergonha de admitir.

Eu não sei o que fez você se afastar de mim. Ou falar constantemente mal de Jacarepaguá justamente para mim, como se a culpa fosse minha. Ou viver falando em ir pro Canadá, mesmo namorando comigo. Só sei que foi muito indelicado. E eu vejo que você fazia isso ainda com seu irmão. Justamente as pessoas que estão/estavam mais perto de você eram as indiretamente agredidas com a possibilidade de te perder.

Paradoxalmente, gostei de te encontrar no aplicativo de pegação disposto a fuder sem necessidade de tratamento psicológico ou médico. E gostei que você me deu mole. Acho que fiquei livre.

Eu tô há semanas tentando entender o que aconteceu e você só diz "Acabou. Tentamos e tá tudo bem". Acho que quem devia entender era você. Mas aí isso é problema seu e eu só dou conta de resolver os meus.

O que vou fazer é entender como é que eu posso ter ficado tanto tempo com uma pessoa que nitidamente me deixou (e não numa relação que acabou: é tão diferente isso), sem querer encarar a realidade.

Então é isso. Não tem raiva, nem mágoa. Acho que entendi pra seguir em frente.

Eu gosto muito de você. E posso ser seu amigo.

Mas não se deixe cair em tesão momentâneo, porque você não vai curtir a minha reação.

Por mim, nossa relação agora está acabada. Finalmente, consegui terminar com ela.

Podemos ser amigos.

Com amor,

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A boneca bailarina

Dava corda, ela girava
A boneca bailarina
Graciosa impressionava
Tutu rosa, roupa fina

Ela ficava de lado
Minha irmã a esquecia
Só pensava em namorado
A boneca ela nem via

Minha mãe me vigiava
Com a boneca bailarina
Muito séria ela falava
Brincadeira de menina

Eu pedia pra brincar
Implorando por segredo
Minha irmã ia pensar
Depois disse dando medo

Você vai poder levar
A boneca bailarina
Se o bilhete entregar
Ao menino na surdina

Pela rua fui andando
Com a boneca bailarina
Bilhetinho carregando
Alegria era divina

Pra quê serve isso?

Pra quê serve isso?
Perguntou papai
Segurando firme
A pureza cai

Pra quê serve isso?
Olhava-me duro
A mão apertando
Meu corpo imaturo

Pra quê serve isso?
Cerveja na pia
O que me faz homem
A mão comprimia

O susto e o medo
Não foram maiores
Que a indignação

O susto e o medo
Não foram maiores
Do que a invasão

O susto e o medo
Não foram maiores
Que a raiva da mão

Encarei papai
Inocência cai
Fazendo-me duro
No corpo imaturo
Que agora doía
Onde comprimia

Pois isto que tenho
Preso em sua mão
Pois isto que tenho
Lugar da invasão
Pois isto que tenho:
Indignação
Pois isto que tenho
Resposta dou já
Pois isto que tenho
Serve pra mijar

Cantiga de homem e mulher

Se você falar
Também vai sofrer
Se é bom para mim
É bom pra você

Bem cedo ela veio
Para me mostrar
As coisas da vida
Do lado de lá
Tudo era segredo
Parecia errado
Tinha muito medo
Ficava calado

Se você falar
Também vai sofrer
Se é bom para mim
É bom pra você

E assim fui crescer
A sempre esperar
Quando ela viesse
Para me mostrar
As coisas que homem
Faz com a mulher
Os medos não somem
Só porque ela quer

Se você falar
Também vai sofrer
Se é bom para mim
É bom pra você

Medo do inferno
Medo do pecado
Contei à mamãe
De olho fechado
Decidi sofrer
Ela do meu lado

Se você falar
Também vai sofrer
Se é bom para mim
É bom pra você

Mamãe nos olhava
Sem nada entender
Vocês são meninos
Não podem crescer
Vocês são irmãos
Não podem brincar
De homem e mulher
Deixa isso pra lá

Se você falar
Ninguém vai te ver
É bom para mim
Também pra você

terça-feira, 26 de março de 2013

O quarto de tio Juca

O quarto de tio Juca
era um parque de diversões
sapatos de mulher
vestidos de bailarinas
revistas de homens pelados
dentro de mulheres
que nojo do mijo branco
que saía do piru deles
e ficava nelas

Ninguém entrava no quarto de tio Juca
às vezes achava que nem mesmo ele
tio Juca também não entrava na casa de vovó Iaiá
só na janela fumando e sorrindo
e a família na sala
todos limpinhos de banho tomado
vovó Iaiá quieta
a TV ligada

O parque de tio Juca ficava
separado da casa de vovó Iaiá
quando voltávamos da praia
não podíamos usar o banheiro de azulejo
porque ia sujar de areia da praia
mandavam-nos para o banheiro de tio Juca
lá podia sujar
lá podia criança brincar

E no quarto de tio Juca
a gente brincava
com os sapatos de mulher
com os vestidos de bailarina
e a gente lia
as revistas de homens pelados
dentro de mulheres
e dizia junto
Que nojo do mijo branco
que sai deles
e fica nelas
 
No quarto de tio Juca
naquela vez fui brincar sozinho
mexia nas roupas e falava sozinho
fazia vozes de homens sozinho
fazia vozes de mulheres sozinho
era os homens e as mulheres sozinho
conversando sozinho

Mas no quarto de tio Juca não estava sozinho
papai e mamãe entraram fazendo Buuu sorrindo
papai e mamãe me questionaram sorrindo
papai e mamãe disseram Pode falar sorrindo
papai e mamãe me levaram assustado

Para longe do quarto de tio Juca assustado
a TV ligada assustada
num quarto da casa de vovó Iaiá quieta assustada
a família na sala assustada
todos limpinhos de banho tomado assustados
tio Juca fumando na janela assustado
papai balançou meu braço assustado
mamãe perguntou Você é mulher assustada
papai disse Você é homem assustado
e levei uma pancada gritando

Pensei no quarto de tio Juca gritando
as conversas sozinho gritando
dos homens e das mulheres gritando
eu era os homens e as mulheres gritando
Você é homem gritando
Você quer ser mulher gritando
eu disse Não gemendo

Nunca mais voltei ao quarto de tio Juca gemendo
Não bate no menino gemendo
disse vovó Iaiá gemendo
papai e mamãe gemendo
me deixaram no chão gemendo
até hoje lembro gemendo
do quarto de tio Juca sozinho

domingo, 17 de março de 2013

Papel branco

Eu costumava dizer que eles eram meus vizinhos: os mendigos. A presença deles foi o que primeiro observei quando me mudei, meio de correria, para o apartamento da rua do Russel, em 2009. Na primeira noite, quando levei o cão para o passeio noturno, notei que um homem dormia perto da saída de serviço do meu prédio. Na mesma semana, observei um cara defecando próximo ao plano inclinado que leva ao Outeiro da Glória e algumas pessoas se banhando no espelho d’água que fica atrás do cabeção do Getúlio Vargas. Depois de algum tempo, comecei a reconhecê-los um a um. Estavam sempre por ali. Dois me chamavam a atenção: o travesti-mendigo (eu me perguntava como alguém que teve dinheiro para comprar peitos poderia ter parado na rua) e o Líder Rastafári Da Matilha que, como o apelido que acabei de lhe dar indica, andava com uns bons 5 cães (todos sem coleira, todos sempre próximos a ele, todos muito educados), um carrinho tosco de carregar coisas e usava dreadlocks balançantes, é claro.

Sempre fico estarrecido com mendigos. Talvez porque um dos meus maiores medos seja o de me tornar um. De certa forma, naquela época vivia um terror justificável, afinal tinha ido para a Glória para assumir o apartamento deixado por meu irmão, que decidiu morar em Juiz de Fora, para fugir do buraco de dívidas em que me afundava vivendo em Copa: um aluguel caríssimo, um companheiro desempregado que não tinha como ajudar nas despesas, além de uma tendência a gastar mais do que ganhava. Assumindo o apartamento, quase todo mundo ganharia: eu economizaria R$750,00 e Daniel deixaria de pagar a multa rescisória de contrato, podendo partir para a nova cidade sem preocupações. Só não ganhou meu ex, que não queria sair da Princesinha do Mar.

Até hoje me questiono se foi por isso: a separação foi quase imediata à mudança, que também teve outro preço: tanto meu ex quanto meu irmão não tinham onde deixar suas respectivas mobílias. Resultado: eu, que sempre primei por ter uma casa arrumada, vivia com uma completa zona que me desafiava orgulhosa diariamente. O pior era pensar que o que havia de meu naqueles 70m² era pouquíssimo: uma cama, a máquina de lavar, as estantes de livros, os livros, é claro, os gibis de X-men e o conjunto de xérox e trabalhos que acumulei com todo o carinho nos anos de graduação, especialização e mestrado. Aquela era a bagunça que mais me incomodava. Eram pelo menos três pilhas de pastas e de textos que eu jurava um dia reler, mas que nunca tomava coragem para fazê-lo tamanho o esforço que seria procurar qualquer coisa ali.

Alguma novela usava a praça do Russel como locação e, certa noite, enquanto levava Eugênio, meu cão whippet, para dar umas voltas, parei para assistir a uma gravação. Era uma cena tensa: um carro vinha veloz da Praia do Flamengo e freava em frente ao Hotel Glória, que já estava em reforma. Devia ser a quarta vez que o automóvel repetia o percurso quando comecei a ouvir um barulho estranho ao qual decidi não dar muita atenção inicialmente, mas que demonstrava uma certa insistência. Compreendi, então, que se tratava de um “Psssit” e olhei para trás, para a calçada do Edifício Ypu, aquele de quitinetes que parece um navio: Era o travesti-mendigo que fazia gestos em minha direção, vestido com uma imunda camiseta regata de onde se viam os peitos de silicone balançando, aparecendo sem sutiã. Pensei mais uma vez em como alguém que teve um dia dinheiro para colocar seios postiços pôde ter ido parar na rua enquanto voltava rápido para o meu prédio. Fiquei com medo dele/dela. Pareceu-me um tanto louco/a. Sei lá.

Eram tempos estranhos aqueles. Uma solidão grande batia quase todos os dias. A maioria dos amigos era do casal, então ficou estranho conviver com eles. Evitava-os por não querer tocar no assunto. Já o pessoal do trabalho todo morava para os lados de Jacarepaguá e Barra, então só os encontrava mesmo durante a semana. Como não tinha muito com o que me distrair, ocupava-me com a tentativa de ajeitar o apartamento, apesar das duas mudanças encalhadas que nem meu irmão, nem meu ex se propunham a retirar.

Certo dia, olhei de novo para a pilha de xérox e trabalhos dos meus anos de estudo. Comecei a me perguntar o porquê de guardar tudo aquilo. Afinal, para dar aulas não precisava mais consultar tais materiais e, depois do que considerei sempre um fracasso, a minha pesquisa de mestrado, eu havia desistido há muito de voltar à Academia. Por que não jogar aquela tralha toda fora? O impulso veio e não segurei. Desci ao térreo, peguei um daqueles carrinhos de supermercados que os prédios mantêm para que os moradores coloquem sacolas & afins para subirem mais confortavelmente no elevador.

Textos de linguística, teoria literária, Antônio Cândido, Silviano Santiago, reproduções de obras inteiras (ai, a pobreza), provas, cadernos: tudo comecei a enfiar no carrinho. Decidi transformar o que uma vez foi o registro das minhas leituras e da minha produção intelectual em lixo, em resto. Talvez em algum momento eu tenha pensado em desistir, mas se houve, foi rápido. Lembrei da obra do Hotel Glória e da caçamba de entulho que estava lá. Um bom lugar para largar aquele monte de tralha.

O carrinho andava com dificuldade na calçada de cimento, mas eu não ligava: agora, enfim, o apê ficaria arrumado e eu teria, duvidava, algum sossego. Quando cheguei exatamente naquele lugar onde outro dia tinha fugido do mendigo-travesti e virei para me encaminhar à fachada do Hotel Glória, eis que me deparo com o Líder Rastafári Da Matilha. Estava deitado bem ao lado da caçamba de entulho de obras com aquele monte de cães também deitados em volta.

“Boa noite.”, Cumprimentei.

“Olá, boa noite!”, ele retrucou enquanto eu começava a retirar as cópias do carrinho. “Mas o que é isso, meu amigo?!”

“Isso? Lixo, acho que posso colocar aqui, né?”

“Ora! Não quer mais isso, não?”

“Não. Muito entulho.”

“Então tem problema se eu pegar?”. Pediu ansioso.

Não consegui atinar direito para aquilo. Ele queria os textos?

“O senhor quer os textos?”, perguntei meio atônito.

“Papel branco?! Mas é claro que quero! Vale muito!”, disse realmente muito feliz com a possibilidade de ganhar aquele suposto tesouro.

Não resisti à curiosidade e perguntei. Juro que não cresci o olho para ganhar dinheiro com o que antes supostamente não servia para nada.

“Vale quanto?”

Não vou dizer quanto se paga pelo quilo de papel branco. Não acreditei que ele pudesse ficar tão feliz com tão pouco, senti uma reviravolta no estômago, uma melancolia e disse:

“Ainda tem muito mais lá em casa. Pegue o que quiser, já volto.”

Ele catava, os cães cheiravam curiosos enquanto eu retornava olhando para trás. Fiz mais duas ou três viagens sempre com o carrinho cheio. Em todas as vezes que descarregava o papel, o cara me agradecia umas mil vezes aquela mina de ouro que era o papel branco. Depois disso, passamos a nos cumprimentar. Eu, passeando com meus cão magrelo e elegante, ele com a matilha de vira-latas. Até que ele sumiu da rua do Russel, até que eu sumi da rua do Russel também. Nunca mais o vi.

O mendigo-travesti uma vez apareceu num vídeo do Youtube no qual uns moleques o zombavam e ele pirava xingando todos de “filadaputa”. Foi meio deprimente e cruel vê-los ridicularizando o cara, que pedia respeito. Verifiquei agora enquanto lembrava e o vídeo está lá: “Travecão do Catete”. Uma tristeza.

Atualmente moro em Jacarepaguá e não há muitos nas ruas. Sempre que vou à ZS ou à Tijuca, observo como são tantos! Outro dia descobri uma que mora na rua Retiro dos Artistas, bem perto da minha casa. Ela passa de vez em quando e sorri para mim, silenciosa. Senta embaixo de um arbusto que o dono de alguma daquelas casas lindas cultiva. Dorme, faz suas refeições e deixa sempre no chão um cobertor sujo. Impossível não olhar, não pensar, não temer. O que aconteceu com ela, como foi parar ali?

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ele voltou aqui. Foi como se a gente se conhecesse de novo. Como agir naturalmente com alguém que esteve no meu pensamento todos os dias do ano que passou? Sim, fazia um ano e a gente se reencontrou exatamente no mesmo 27 de dezembro, mas tomei o cuidado de fingir que não sabia. "Não deixe tão claro que você está completamente apaixonado", é o que todos aconselham sempre: "grande parte da sedução está na conquista".

Ele chegou meio cínico, safado. Contando vantagens sexuais europeias. Eu só falei do Alexandre, mas não contei do final meio traumático e medroso que rolou. Sinto saudades do Alexandre até hoje. Até mesmo quando a gente raramente se vê. Nestes momentos, eu também sinto saudades. Mas enquanto eu pensava nisso, um quase namorado italiano foi mencionado. Aí o chopp começou a bater bad e eu fiquei triste por não ter havido nenhum quase namorado no ano que passou. Em grande parte porque ninguém é tão interessante quanto ele e aqueles cabelos curtinhos e meio crespos, a boca fina e o olhar safado, a voz rouca que me faz ter vontade de agora abraçar o vazio de tanta ternura que me causa. Eu não queria nem quero mais ninguém. Como ele não?

"Você está namorando?" Ele perguntou. E eu respondi doído:

"Não". Não disse, nem poderia dizer ("Não deixe tão claro que você está completamente apaixonado"): "Eu só quero você".

"Este ano foi bem difícil para mim. Eu me sinto isolado e triste e não sei como sair disso."

Daí ele manteve o cinismo e falou:

"Pois você não me engana com isso de isolamento e cães e jardim e Jacarepaguá. No fundo eu e você sabemos que você é um puto devasso."

E eu sabia que era verdade e que também não era. Acho que não sei mais ser puto. Só que ainda tento. É que não me sai da cabeça o Alexandre chegando aqui em casa com aquela cara dizendo "Tenho uma coisa horrível para dizer e não sei como". E depois três meses de agonia e medo e depois o alívio. Ah, como eu queria que o papo fosse outro, que ele me dissesse que não parou de pensar em mim no ano que passou e eu, aliviado, diria: "Eu também! que bom que você está aqui". Mas entendi a deixa e falei logo:

"Quero te dar um beijo aqui e agora".

E ele fez aquele sorriso macio de que me lembro de antes, autorizando, e eu o beijei. Mas ainda era desconfortável, apesar de bom.

E foram mais umas quatro rodadas de chopp e eu falei de Avenida Brasil, que foi incrível, e ele ouvia extasiado de inveja de eu morar no Brasil, apesar de Londres ser o máximo. E ele mais uma vez falou cansado das amigas lésbicas que ele ama, mas não quer mais nenhuma e eu falei dos Fernandos e do Gustavo. Não consegui falar da Escola. Ela ainda me doía, como voltou a doer agora.

Decidimos sair dali daquele bar da Farme e fomos à praia nos beijar. Havia dois caras na areia que cismei que estavam olhando para a gente e eu comecei a ficar tenso enquanto ele tocava no meio das minhas pernas procurando o volume que não surgia, falando:

"Quero te dar, cara!"

Isso só me deixou mais nervoso e tive que dizer: "Meu pau não tá subindo. Não tô relaxado aqui." Eu também não imaginei transar ali na areia super iluminada de Ipanema na frente de dois caras mal-encarados na impressão que tive de relance bebum.

Ele, então, respondeu aquela frase que definitivamente faz qualquer pênis adormecer mais e mais:

"Sem problemas! Fica tranquilo."

Saímos da areia, fomos tomar um côco e, entre um papo e outro, perguntei:

"O que você tá a fim de fazer?"

Daí que ele respondeu:

"Vamos marcar de nos ver outro dia?"

Respondi "Claro" quase chorando com a certeza de que um ano da minha vida tinha acabado de ir pelo ralo e que não teria mais ele na minha cabeça como possibilidade de fantasia amorosa. A certeza de que acabou.

Só que não.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Estou chorando há tantas horas. De saudade, de desilusão, de frustração com a vida.

Acho que finalmente começo a entender as pessoas amargas. Tem uma hora em que é muito difícil não se tornar uma.

Eu não gosto da minha vida. Não gostei da minha infância, não gostei da minha juventude. Se eu fizer um esforço, posso contar nos dedos os anos bons.

Eu tinha ilusão de que este seria um bom ano e o que vem, melhor. Acabou. Não há porque ter esperança. Estou condenado: essa é a minha vida. Aguenta.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Todas das terças venho pegando carona com uma professora lá da Escola. Ela dá aulas no Humaitá e mora em Laranjeiras. Facilita muito chegar à PUC tão cedo e ainda não ter que pegar o quentão do 755.

Daí hoje fiquei andando pelo Humaitá e meu humor deu uma leve melhorada.

Mas foi rápido. Eu não moro mais na ZS. Eu não posso. Não tenho condições.

Trabalho naquele inferno para não ter condições.

Antes era ilusão, mas eu me vingava. Escapava. Agora estou imerso na merda.

Ficar adulto é assim: entender que é uma merda e não se matar para não ir para o inferno.

A tristeza que me dá é um déjàvu da minha infância. Aquela coisa desesperançosa quanto ao futuro que eu sentia, aqueles anos todos de infelicidade.

Eu não gosto da minha vida.

Eu não vejo jeito de mudá-la.

Eu queria alguma coisa para me salvar.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Às vezes me bate uma solidão que deprime porque acho que sei que não tem quem a resolva. Descobrir isso foi o grande salto. Algumas vezes pensei que ela passaria com O Grande Amor e fazia aquele monte de loucuras que hoje me custam tão caro. Porém hoje vejo que ela já estava comigo na infância, quando eu me sentia tão deslocado em qualquer lugar: casa, escola, condomínio, catequese, rua: o mal estar da minha existência sempre comigo.

Às vezes esqueço dela quando faço sexo. O desvario dos corpos, a violência consentida do prazer que dura pouco. Em outros momentos, a companhia dos  animais é mais eficaz: tenho quase a sensação de Deus. Acho que se houver, deve ser assim. Com amigos ela desaparece quase por completo, mas sei que ainda está lá.

Bom mesmo é quando entro na literatura por que lá a solidão é valor. Então comecei a pensar que talvez a solidão que não sai de mim deva ser também valor. Tenho que aprender a viver com ela. Talvez eu seja feliz assim e fique rindo do mundo, que me deixa tão só. Ou ria de mim, que me excluo do mundo. Vai saber.

Aceitar a solidão deve ser a sensação de quem sai de um hospital depois da internação. Rever o dia, a cidade. Sentir-se dono do próprio corpo, agora saudável.

Mas agora ela só dói mesmo.

domingo, 18 de novembro de 2012

Há pouco mais de um mês comecei a sofrer por antecipação por conta de uma possível-quase-certa decepção com o trabalho. Desde então, minha vida parou e se transformou numa espiral de desesperança-autopiedade-e-destruição: comendo feito louco, gastando mais do que devia, parei de malhar... Não consigo deixar de achar que tudo é uma droga e que não gosto do jeito que ando vivendo.

Queria estar mais bonito, mais cuidado, menos velho. Gostaria de ter mais esperança no amor, na possibilidade de um. Adoraria ter o meu salário para usar, comprar minhas roupas, passear por aí. Como seria feliz se estivesse perto da praia, de gente de cabeça aberta, de viados.

Mas não é assim. Não tenho dinheiro, moro perto-longe da praia (o que é mais tortura), não vejo viados no meu dia-a-dia na rua, trabalho num lugar homofóbico. Estou tão cansado!

Acho que o que me deixa mais triste é pensar que talvez o resto da minha vida seja assim. Tem que ser assim. É a vida que dá pra ter.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A gente usa levianamente esta expressão, mas juro que não ajo assim quando acho que estou "ficando deprimido". Quando penso no futuro, quase nada me anima. Sei lá. De uns tempos para cá, o peso dos anos tem ficado mais e mais claro: tenho me achado velho. A barba muito grisalha, a careca cada vez maior, a quantidade grande de pelos brancos no peito... Daí fico pensando na vida que ando levando e nas projeções que vejo possíveis para daqui a alguns anos e me dá um desânimo tão grande... Parece que vai ser sempre assim.

Hoje pensei, por exemplo, no verão e nas férias que se aproximam. Provavelmente vou ficar mais uma vez trancado em casa por falta de grana ou de disposição de sair daqui e levar 1h30min para estar em qualquer praia. Carro? Nem pensar.

Eu olho para o meu trabalho e também fico para baixo. Sei lá: 4 anos dedicando tanto para não ter o valor que eu esperava reconhecido... Muita tristeza.

Ando me achando feio, largado. Engordei uns quilos, estou todo redondo. Não me dá vontade de malhar. Sinto como se não valesse a pena.

Desisti de entrar no Doutorado. Pura falta de tempo, além de muito cansaço.

Sinto como se nada valesse muito a pena. Talvez os cães, os amigos próximos, mas nada para mim. Nada  meu.

Ando me sentindo muito só, mas é uma solidão que não sei bem como explicar. Não é como se eu estivesse sozinho no mundo, nada disso. É como se eu não estivesse mais comigo.

Sinto falta de mim.

domingo, 7 de outubro de 2012

Acho que eu só vivo mesmo atualmente porque eu tenho bichos para cuidar. Talvez porque eu também esteja estudando (precariamente, pois meu trabalho que não me valoriza me consome).

Estou muito de saco cheio de tudo. Odeio quase tudo o que me circunda.

Acho que está na hora do meu plano b e começar a me organizar para ir embora para o Canadá.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Durante a semana, quando a gente já estava mal de grana, eu e o Paulo tínhamos um plano de economia: só comeríamos em casa. Eu acordava cedo, às vezes a gente fodia. Sozinho, tomava um café que eu mesmo preparava, passeava com o cão, ia ao Recreio dar seis tempos, voltava a Copa, corria ao apê, entrava, lavava as mãos e a gente sentava à mesa. Ele sem cueca e com aquela bermuda velha que adorava usar, peito de fora. Eu esbaforido, com roupa de trabalho (alguma camisa de botão, jeans e tênis). A gente se dava um estalinho rápido, começava a comer e conversar qualquer coisa enquanto eu pensava "meu Deus, adoro cada mancha de vitiligo, vou mandar eles escreverem um parágrafo argumentativo, não consegui corrigir uma redação sequer, vão cobrar". Mesmo quando era só frango grelhado, batata gratinada com sal grosso, arroz e rúcula, ele fazia ser especial. Alguma erva que transformava o almoço num banquete. Eu terminava a refeição, escovava os dentes, lavava um pouco o rosto e ia correndo para o metrô para não chegar atrasado no Flamengo. No intervalinho da aula da tarde, enquanto comia o bolo de cenoura da cantina com o café delicioso que as irmãs deixavam todos os dias na sala dos professores, ele me ligava pra saber como eu tava, pra me falar alguma coisa de trabalho que poderia ser, mas que provavelmente não rolaria e eu pensava "ai, ainda tenho que pegar o trem na Central pra Realengo, o trem, mesmo sem ar-condicionado, está melhor que o metrô, que às cinco fica lotado de um jeito inimaginável" e lá pelas 23h eu chegava em casa e ele estava ainda lá, sentado de frente para a tela do computador. Eu tinha a sensação de que ele  nunca saía de lá. Quando vinha falar comigo, os olhos estavam vermelhos. Hoje acho que ele fumava perto da minha chegada para ficar menos nervoso e poder conviver com alguém além da própria frustração.

Quando lembro desses dias, quase penso que eu deveria atender seus apelos e ir vê-lo em SP, como ele me pede. Ou recebê-lo, quando vem ao Rio, mas daí naturalmente volta a memória de que, assim como havia a rotina gostosa, todas as sextas à noite, quando eu estava esgotado de tanto trabalhar e louco de vontade de só tomar um banho e ficar curtindo a companhia no sofá, ele começava a preparar vodca com Redbull e ligar para aqueles amigos fins de linha que dividiam com mais dois um quitinete e que não perdiam de forma alguma as baladas de todos os dias do fim de semana. Eu dizia "Não vai, fica comigo. Tô cansado, querendo ficar junto" e ele dizia "Eu preciso espairecer, eu te amo, mas vou ter que ir. Fica bem. Um beijo! Vem comigo? Você que sabe, hein!"

Ele diz que mudou, que o conheci na pior fase de sua vida, que ele não era bem ele, que já me pediu perdão, que não sou ninguém para julgá-lo, que eu guardo muita raiva no coração e que isso faz mal, que eu devia buscar tratamento, que ele não esquece a nossa foda, que estou proibindo-o de ver o próprio cão e que isso é muita maldade, que...

Nunca penso em revê-lo novamente. Morro de medo disso. Morro de medo de mim.

domingo, 29 de julho de 2012

Eu me sinto preso. Tudo é difícil. É como se tivesse voltado a morar em Realengo. Praia? Não. Dar um rolé? Não. Supermercado no caminho? Não. É longe, ir a qualquer lugar é um custo, difícil. Eu fico angustiado só de pensar em sair.

A vida consiste em ficar em casa e sempre tem tanta coisa pra fazer... A maioria chata. Muitos consertos caros, essas coisas.

Os meus amigos só andam de carro e só saem para restaurantes. Casa-carrofechado-restaurante-carrofechado-casa.

Normalmente nas férias a minha frustração piora porque eu não tenho dinheiro nem disposição para sair todos os dias daqui. Então a vida fica melhor quando estou trabalhando porque pelo menos eu realmente TENHO que sair.

As minhas férias, quando eu estava na ZS, consistiam em ir à praia todos os dias, em andar de bicicleta, em ir ao mercado na volta, em encontrar os amigos na rua pra não fazer nada além de ficar na rua, em fletar na rua, em ter uma rotina feliz.

A minha psico me relembra: "Você tinha que dividir apê e era ruim".

A minha amiga uma vez me disse: "Talvez o erro tenha sido você morar lá. Viveu algo que não poderia, ficou mal acostumado."

Eu quero a ZS. Não tem nada a ver com status. Mas a maturidade consiste, pelo menos em parte, em saber até se pode ir. Eu não posso morar na ZS: não posso bancar. O que eu posso bancar é essa vidinha chata e sem graça. É essa sensação de que meus dias são um porre, uma coisa muito chata e que eu nunca vou sair disso.

E eu não vou sair, né? Então é isso, eu descubro que felicidade é um lance que eu não tenho nem nunca terei grana para bancar.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Não gosto de gente carente. Aquele povo que fica dia e noite no Facebook ou no Twitter postando, que pede muito carinho, que fica insegura quando se apaixona, que de repente sofre por descobrir que a vida seria intolerável na falta de certo alguém.

Sou exatamente a descrição de pessoa que imediatamente acima descrevi e disse que não gosto. Desde cedo aprendi a não querer contar muito com os outros e a viver sozinho: não gosto de esportes coletivos, trabalhos em grupo, dividir nada. Acho que por isso tenho poucos amigos, companheiros. Ou tenho a dificuldade de valorizá-los, mantê-los por perto.

Tenho uma amiga que era presente na minha vida. A gente fez pós juntos, depois Mestrado. Fui à sua defesa, a gente se visitava de vez em quando. Acompanhei na rede social que recentemente ela se apaixonou por um norueguês e nesta semana fez as malas e foi embora para lá viver com ele.

Não me despedi. Em algum momento, abri mão de nossa relação e a deixei escapar. Faço isso sempre... Acho que as pessoas uma hora desistem de me procurar, sei lá. Eu nunca dou muita trela mesmo.

Isso piorou acho que quando comecei a ter vida sexual. Outro dia a Fernanda me disse que o sexo deve ser o único momento em que tenho carinho humano. Fiquei pensando e me dei conta de que é verdade. Quando comecei a aprender a buscar sexo, passei também a dar menos importância para os amigos, afinal, eles não eram prioridade. Transar era.

E toda vez que me apaixonei por alguém com quem transei foi aquela explosão de desespero. Como se num solo árido de repente chovesse torrencialmente, como se um faminto descobrisse que tem diante de si um banquete.

Nunca achei que merecesse muita chuva ou o banquete. Sempre olhei para a chuva e para a comida com medo, mas, se algum dia me permitisse tomar banho ao ar livre ou satisfazer a minha fome, não conseguia mais sair debaixo d'água ou da mesa. Aquela coisa de "pobre quando come se lambuza". Eu não sei receber afeto e me satisfazer com ele.

Acho que direciono mal a minha vida nesse sentido. Detesto perceber como sou carente. Odeio me ver agir de forma carente. Não aguento ter esse vazio que eu gostaria de preencer de maneira racional e equilibrada, porra.
Uso o blog às vezes para relembrar onde estava ou o que estava fazendo em determinadas épocas, afinal ele está por aí há 8 anos... Muita coisa rolou. Vira e mexe entro e fico relendo os posts. Às vezes dá tanta vergonha...

Então, para consultas futuras, que fique registrado que no dia treze de julho de dois mil e doze, uma sexta-feira-treze, firmei contrato com a Caixa Econômica Federal para o financiamento do meu apartamento que está em fase de construção no bairro do Pechincha, em Jacarepaguá.

Fiquei muito feliz, mas esperando alguma extrema emoção, assim como quando me formei, quando defendi o Mestrado ou quando transei a primeira vez com um cara. Não foi nada assim, só um alívio. No fim das contas, continuo sendo o mesmo.

Nestes dias eles colocaram os tijolos nas paredes do meu exato apê. Ele fica de frente para os fundos desta casa onde moro. Fiquei meio intrigado olhando para o vão já formado da janela onde, daqui a pouco mais de um ano provavelmente, ficarei encostado vagando o pensamenro vendo algo fora do espaço interno da casa. Minha vida acontecerá ali, onde hoje não há nada além do que operários, cimento, tijolos e vazio.

Deu já saudade do futuro.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ando precisando escrever e não consigo tomar coragem para fazê-lo. Não sei do que é esse medo, mas sei o tipo que é. Justamente o que eu menos tenho na vida: o que nos impede de fazer as coisas. 

Acho que vai ficar uma porcaria. Acho que não tenho talento. Acho que não tenho condição.

Tento lembrar dos meus papos com alunos que andam mal em alguma coisa: não conseguem fazer um trabalho, tiram notas baixas, coisas assim.

"Isso não diz quem você é. Não muda nada sobre sua existência. Só mostra que alguma coisa aconteceu e a gente tem que descobrir o que é e seguir em frente resolvendo até conseguir."

Eu devia falar mais assim comigo mesmo. O mestrado não foi bom e eu hoje consigo entender onde foi que errei. Por que ainda deixo que isso me defina? Não devia eu ser mais seguro e meter a cara?

Então, vamos lá, vou fazer comigo o que faço com os alunos:

"Isso não diz quem você é. Não muda nada sobre sua existência. Só mostra que alguma coisa aconteceu e a gente já sabe o que é e agora vai seguir em frente resolvendo até conseguir."

domingo, 24 de junho de 2012

Acredito que há uma escala de coisas que nos dão prazer. Ele existe como um mecanismo biológico para fazermos o que é bom para a gente. Tenho vergonha de dizer, mas fico muito feliz quando vou ao banheiro e acho que estou sendo muito claro sobre o que estou falando. Precisamos, diariamente, eliminar as impurezas do nosso corpo: daí vem a satisfação. Aprendi coisas sobre o meu organismo neste ano. Tem dois dias que começo a ter compromissos somente a partir das 11h45min, por isso vou sempre, nessas ocasiões, muito bem humorado para fazer o que quer que seja, afinal, estou sempre em dia com o banheiro. Dormir é outra coisa maravilhosa. Precisamos recarregar as energias. Fico muito triste porque hoje em dia, para dar conta dos meus compromissos, às vezes tenho que abrir mão de algumas horas de sono: e eu realmente preciso das tais 8h! Comer e beber têm relação com a sustentação do nosso corpo. Perdi o hábito, mas antigamente eu gostava de comer bem devagar quando a comida era boa: para aproveitar o máximo de tempo possível o momento precioso da percepção do gosto.

Mas nada se compara ao sexo. Qualquer coisa que tenha falado antes se compara a transar bem e fico me perguntando o porquê e acho que cheguei a uma conclusão. Viajei nisso hoje porque faz mais ou menos um ano que Alexandre vem aqui e me leva a lugares que nem imaginava que existiam. E olha que sou rodado! 

Nada é mais fantástico, importante para nosso corpo, relevante para nossa espécie do que formar uma vida. E é daí que vem o sexo. Nesses momentos em que um ser permite que outro o invada, a conexão que se estabelece e o fim a que, originalmente, se destina é tão primitivo que finalmente entendo ou acho que consigo ordenar em pensamentos as coisas que sinto ou que percebo nos outros quando o assunto é erotismo. Fico imaginando que, se a partir de um ato como esse, surgisse um filho, eu iria pirar de um amor louco, aquele que os amigos que têm crianças tentam explicar, mas não conseguem. O amor da lembrança do momento do surgimento daquele ser, o amor do enxergar meu descendente, saber que ele é uma extensão de mim e que, por isso, continuarei vivo.

É claro que o meu sexo com o Alexandre não gerará qualquer vida. Nem me lamento por isso porque o bom de ser humano é que podemos manipular os mecanismos biológicos de prazer para tê-lo quando bem quisermos, da maneira que quisermos. Mas isso não deixa de fazer com que essa energia seja uma das últimas que nos aproxima da irracionalidade, que nos lembra de que somos animais. Já cruzei com pessoas em situações tão essencialmente sexuais que eu me perguntava se elas existiam fazendo outra coisa que não aquilo. Certa vez um cara com quem eu transava no Flamengo, ao ver que eu estava triste pelo fim do namoro e amando um cão, me disse:

"Não consigo associar essas coisas ao cara que conheci antes. Para mim, você era um devasso e só."

Sem conclusões a tirar. Só estou feliz da vida por ter passado muitas horas com o Alexandre hoje.