quarta-feira, 21 de julho de 2010

Pet creche

Os Fernandos foram para a Europa. Não tinham com quem deixar os pássaros: uma calopsita (o Manolo) e um papagaio (o Gaio).

Mônica foi para a Argentina. Não tinha com quem deixar a cadela vira-lata que lhe dei no início do ano, a Molly.

Eu permaneci em Jacarepaguá. Não tinha dinheiro para viajar, uma vez que sou comprador-gastador compulsivo e vivo zerado sem entender direito por que. Fiquei com os bichos todos.

Os pássaros são tranquilos. Tenho um carinho especial pelo Gaio. Ele me lembra o papagaio que meu pai teve em Manaus e que morreu nas minhas mãos por envenenamento acidental. Ele fica solto na janela da casinha, pendurando-se na jabuticabeira. Hoje percebi que ele estava molhando a cabeça no minúsculo pote de água que encho todos os dias. Peguei um de plástico maior e enchi. O bicho tomou um belo de um banho. Fiquei até com inveja de tanta felicidade.

A Molly é uma fofa, só que sua dona é uma das pessoas mais complacentes com as próprias falhas que conheço. Ela me disse tranquilamente que nesses cinco meses que está com a cadela não teve tempo de ensiná-la hábitos de higiene. Ou seja, a pestina caga e mija onde dá na telha. Tem que ser muito do bem para ser tão amada por mim, a Mônica. Estou cansado de tentar ensinar a cadela e de limpar sua sujeira. Malditas sejam Mônica e Molly, mesmo amando-as profundamente.

Mas estou contente com isso. Cheio de companhia não humana, observando as excentricidades dos animais de estimação. Como é gostoso.

Sabe que estou muito feliz aqui em JPA? Estou me sentindo aquelas pessoas classe-média-alta que largam a Zona Sul e compram sítios por aqui, para viver mais perto da natureza. Doce ilusão. Sou somente um maluco incapaz de conter os impulsos gastadores e emocionais que precisou se esconder por aqui para encontrar um pouco de paz.

Acho que apesar de tudo, estou encontrando-a.

Que bom.

Seu Amadeu

A Fernanda deixou uma grana para eu colocar grama antes de viajar.

"Você vai ver o que é morar em uma casa com quintal gramado", ela disse.

O cara de quem encomendei a grama disse:

"Tem que ter sol. Senão ela morre."

Decidi, então, chamar o seu Amadeu,o faz tudo aqui da vila, para podar as árvores para abrir espaço para o sol. Aqui tem um pé de graviola e uma jabuticabeira, além de diversas plantas ornamentais.

Ao se deparar com o tamanho das árvores, ele pediu uma escada. Atendi prontamente à solicitação, entretanto, a ferramenta seria pequena para fazer o serviço.

"Seu Ivo não está aí?", ele perguntou, provavelmente pensando em pedir-lhe a escada emprestada. "Não", respondi. Seu Ivo é o pai da Fernanda e mora aqui em frente. "Paciência", pensei, "Não vai dar pra fazero serviço direito, merda", e fui cuidar das coisas da casa. Lavar, estender roupa, passar um café... De repente, ouvi um chamado do seu Amadeu. Fui ver o que era.

"Nesse tamanho tá boa a poda?"

Ele estava montado no pé de graviola, a quase 2,5m do chão.

"Está ótimo", respondi assustado.

Depois ele pediu sacos de lixo para recolher as folhas e galhos caídos. Começou a puxar conversa comigo. Adoro papo de gente simples e mais velha. Não aguentei e perguntei sua idade.

"7-8", ele disse, falando os dois números em separado, acho que para enfatizar.

7-8. 7-8. Eu tenho 3-2 e jamais conseguiria montar numa árvore. Agora ele está em cima da jabuticabeira e não consigo saber se estou mais com medo de ele cair de lá ou com inveja de sua disposição e simplicidade.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Eu nunca, apesar de fazer análise, realmente acreditei naquelas coisas de traumas de infância e de repetir comportamentos a partir deles. Nunca até ontem.

Vou ao consultório há quase 3 anos e somente ontem me dei conta de que todas as minhas relações neuróticas são muito semelhantes a uma que estabeleci quando criança. Vira e mexe me pego chorando. Eu acho que nunca fiz isso de chorar, só segui em frente tentando ser forte para esquecer.

Só que traumas devem ser como cicatrizes: marcas que nunca de fato saem de nós. Tenho umas no cotovelo esquerdo que de vez em quando me pego a olhar e lembrar a maneira ridícula como elas apareceram.

A psicóloga enfatizou muito nesses anos que era importante saber o porquê de tantos comportamentos autodestrutivos. Semana que vem quero começar, já que finalmente temos a resposta, perguntando:

"E agora, que porra eu faço com isso?"

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Casamentos

Fui convidado para o casamento de uma colega de trabalho para esses dias. Sempre tive implicância com esse tipo de comemoração, afinal a maioria das pessoas fica extremamente constrangida com a demonstração de afeto gay em público, enquanto celebra a união heterossexual com sacramento religioso e grandes festas.

Outro dia saquei que sou de uma geração que provavelmente não verá o casamento homossexual no Brasil. E eu falo casamento mesmo, porque não quero menos do que os outros.

...

Bom, chamou-me atenção o fato de esse convite ser individual. Parece que não é muito educado convidar um solteiro sem acompanhante. Entendo a economia... Casar não é barato e não tenho amigo que seja rico, mas lembrei que todos os convites de casamento que recebi enquanto morava com meu ex-namorado incluíam o nome dele.

Ironicamente ele quase nunca quis ir comigo. Tenho certeza de que tinha vergonha de se apresentar em público como casal. Ele era um imbecil, mas quem pode criticá-lo por isso?

Cara, como me dói viver num mundo assim. Porra!

Acho que ironia maior ainda é que a última vez que nos vimos como namorados foi numa festa dessas. Brigamos o tempo todo por todo o tempo que passamos juntos.

Será que existe algum jeito de parar de sentir tanta revolta e amargura? Desculpe o tom excessivamente dramático, mas não tenho outro para dizer sobre as coisas que estão agora aqui dentro. Nunca estive tão solitário e, ao mesmo tempo, tão desenganado com tudo.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Aí estão as razões da minha síndrome de ermitão. Muito bom voltar pra casa.